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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

RUI NUNES

I
o pântano é um brilho sem interrupção, uma cegonha que se desprende da luz, com sangue nas patas. Não construirá o ninho de carqueja e urze, nestas chaminés. Rolos de fumo:
a cinza acabou de nascer.
:
Hoje, na berma da estrada, pequenas casas, rodeadas de um jardim, onde as mulheres plantam couves e os homens podam macieiras:
são brutais, os pequenos gestos de paz:
escondem um massacre na tesoura da poda.
E de golpe em golpe atinge-se o primeiro.
:
Não esqueçam. Eles. Mas não sabem o quê. Podam macieiras. Ouvem-se as tesouras. E a luz cai irresoluta, na estrada que vai de Oswiecim a Krakow. Camionetas aos solavancos deitam fumo negro pelo escape, um cheiro a óleo queimado. O alcatrão esboroa-se nas bermas, o vento abana as cancelas de madeira podre. Ininterruptas passam as casas com os seus minúsculos jardins, ralo o verde desta relva, mais erva do que relva. Ávores enfezadas, lá ao fundo, cresceram até meio, até meio de tudo. Dos tubos de escape continua a sair um fumo negro, na estrada que vai da Cova da Piedade a Corroios, ou de Oswiecim a Krakow.
:
A voz prende-se-lhes no escarro.
Eles tossem e limpam a boca
com as costas da mão.
Depois limpam o cuspo com a outra mão
As unhas tiram a terra das unhas.
O vento da tarde: arrepia.

- Vem para dentro,
gritam as mulheres.
Vagarosos, os homens arrumam as tesouras de poda, fecham com um cadeado as cancelas oscilantes, esfregam as mãos nas calças. E vão para dentro.
O jardim começa. A triturar.
:
na água da bacia, reflexo ou sombra:
a nova face do trânsfuga,
onde se abriga a imobilidade.
A traição?
Corta.


II
entre dois sons simultâneos
há um grande silêncio.
Uma distância.
E uma voz por entre,
que mesmo não dizendo continua.
Infatigável como a tesoura que poda as macieiras:
som após som, ramos secos sobre ramos secos, a secura risca.
Não começa, nem acaba, esta voz: tem só um tempo em que é subterrânea. Uma espera? Por vezes prolonga-se. E as palavras ficam ásperas. É a voz de uma mulher jovem que o prolongamento envelheceu. A máscara? Persona? De súbito fecham-se as tesouras, a espera cortada, afastam-se os pés, arrastando os galhos. Riscos. Não é brutal a memória do homem que poda macieiras: o cotovelo na secretária, entre os dedos uma caneta. Ou já, ou ainda não, ou sempre. De onde e para onde, só ele sabe. Uma linha de caminho de ferro reduzida, uma tranvia. Pinheiros de um lado e outro. O que foi, as ervas entre as chulipas não cobriram. São assim as ervas, às vezes: mostram o que recomeça. Um pontapé nos ramos secos, enquanto a tesoura poda o vazio, o crepúsculo: é na falta de luz que os troncos ficam mais nítidos. Que os sons ficam mais nítidos: separados uns dos outros, liga-os a falta de um caminho.

Não se escapa. Nunca.
As tesouras de poda não desistem.

procuramos a face verdadeira, toda a vida é a aprendizagem da face verdadeira,
estamos cada vez mais próximos: três ou quatro risos, para que os olhos não desistam.
Não temos as grandes palavras:
unicamente a palavra risco para o que há:
a fúria de uma criança,
a demência de um burocrata.
O risco prende-nos a nada, não começa nem acaba, suporta o movimento dos olhos para os manter abertos, não é o início de um rosto, de uma casa, de uma ávore, a um risco nada se acrescenta, está  completo na sua coisa nenhuma. É. Numa parede, num vidro, no tempo de uma mesa, numa folha de papel,
sobre o nome,
mostra um nome.
O anónimo.
:
As tesouras podam.

Rui Nunes
in, Revista Cão Celeste nº 8

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

FILIPE MARINHEIRO


esqueces-te como as manhãs são praticamente iguais
manhãs loucas a bailarem frescas e livres
os caminhos são intervalos
e o resto do dia é o improviso da nossa triste vida



**

tenho uma pérola de espinhos a circular ligeiramente desmaiada
dentro do sangue
e todo geométrico sangue sai pelas guelras fora
gesticulando
na profundidade etérea
da minha garganta contra a radiação solar
e nas poças transparentes do pulmão
um fumo astronómico a inclinar o outro pulmão
que baila peito acima e abaixo
numa fúria
em forma de trovoada
as genialidades que mais amo estão viradas para o avesso
e essa pérola de espinhos
chora dulcíssima com todo o seu génio
sobre choques térmicos deste frágil som eléctrico
e um trémulo bolor solta-se
como repuxos abruptos
depois subo tantos degraus quantos tombo enrolado numa treva
em delírio adentro no incêndio deste crime
roubo o futuro da luz
e das cidades sem qualquer desvastação
ou beleza
que magneticamente racha o ilusório nocturno lugar
como a pancada desse sangue brutal
compõe esses espinhos formidáveis até colocar as pérolas
em cima da boca sedutora e doce
e a garganta em chaga aniquila todos os espinhos e pérolas
desaparecendo-os
um por um
destes movimentos muito quentes
estrangulando-se sem memória nem coração



**

despi por ti
esta manhã num incêndio
os meus dedos debaixo das mãos caem levíssimos
nos lados interiores da minha cabeça alegre
as manhãs estrangulam as veias mortas doutras manhãs tremendas
doces manhãs
a caçar a minha cabeça e a cabeça salta estendida
no perfil doido doutra cabeça
à cabeça despida a trepar dedos mãos e sol a bailar
porque nada sabe ainda
manhãs de cabeça em cabeça adentro
cabeças a esgaçarem as mãos medonhas pelos dedos
devorando
unicamente os nervos longos
que saem à força dentro de todas as cabeças que se arrastam
no vazio lírico
da minha cabeça a tecer coisas sem razão maravilhas únicas
a cabeça ama as manhãs mais belas
as esplêndidas manhãs brilham nos incêndios desvairados
inclinam-se numa ventania – perseguem os pensamentos
a cabeça vai com a traição de si mesma
a cabeça trai e inaugura o sofrimento
e todo o fundo em dor
se levita na cabeça dentro da profunda cabeça estremecendo-a

e a cabeça louca tropeça e tropeça pura no doce orvalho fora
– golpeia-se: vive na beleza
e o orvalho desfia os malmequeres
com pálpebras fechadas que sobem dolorosamente sobre um céu
de petróleo macio
como a romper o ritmo das imagens das luzes das palavras
das fantasias novas e velhas
de outras cabeças de todas essas cabeças a perfurarem
o sangue sombrio
para outro novo sangue em amor e outras longas coisas
a arder ainda mais e mais
debaixo duma nuvem de chuva grossa e fina a rachar
todo esse petróleo
em filamentos íngremes potentes
o petróleo no meio da alegria em flecha escorre na garganta
cerrada
e disseram-me certo dia que perante as gotículas de chuva
a garganta encolhe-se
flutuando noutra garganta
e o petróleo num arco é incerto
durante as noites durante os dias mortos dias e noites moles
a baterem fortemente na ponta das cabeças paradas
a dançarem
depois batem no líquido do petróleo
a passar a correr a jorrar a levitar diante as estrelas
criadas pela imaginação fecunda
as estrelas escurecem inundam-me a cabeça já doida
e batem em flores solares
a cabeça sumptuosa renasce como fogo em criação
ou anunciação total alastrando o choque do sangue que se toca
e fere

a minha cabeça alaga-se sem violência se estala a cervical
ou doçura promiscua ou orgulhosa melancolia
em todos os corpos com olhos
ou com línguas furibundas mórbidas
afiadas pelos punhais pelas manhãs em embrião a enrolar-se
por dentro sem orvalho raso de aromas ágeis
e a cabeça roda para um outro lado
para o mesmo lado de trás
cabeça deitada para a frente cabeça à superfície desvairada
com odores límpidos esguios
com o alto estremecimento das flores em redor
e o coração
flutua a pulsar fora dela
por entre as brasas na base suspensa da minha e tua cabeça
– que pavor!
as gélidas manhãs deslizam nuas
na gravidade fértil desse lume as manhãs criam as mais altas
noites e manhãs
e noites a bailarem
nos recantos da carne da minha cabeça
deitam fumo
barulhos lá bem dentro – querem destruir todo o corpo
às vezes beijam-me a testa pequena
como quem ingere
o grito de pedras que vogam
e a força terrível das mãos sobre a cabeça a bater fortemente
na fímbria dos dedos expelem as mãos sacudidas
se as arrancam e dormem na sua finura:
uma verdadeira riqueza!
as mãos e dedos correm para atravessar com prudência
os olhos e ouvidos cuspindo na cabeça cores espessas e luminosas

porque querem espremer a cabeça que plana agora
em sangue fresco
sangue a derramar pingos musicais e todo este esforço
rasga sufocando nada mais nada menos
do que as minhas belas manhãs
manhãs meigas
estou vivo escrevo a palavra morte
e o todo da nossa vida desmorona lá dentro dessa morte
uma por uma
gritando com a vida a mover-se
como morte escancarada onde a corrente de ar é eterna respiração
e se respira para voltar
a inspirar cabeças anormais
a própria vida e morte vivem juntas
bem palpitantes bem sozinhas
sem ninguém para as iluminar
a minha cabeça em pesado andamento bate dura
nas pontadas das noites e manhãs e escorregam na cabeça
que mergulha no petróleo líquido
e ao saborear o incêndio desta maravilhosa manhã
a passear jamais descansarei
– dispo-me
 
** 

desço o aroma ao mar incandescente estreito-o no peito turvo

e todo o mar é um fio de sabores rentes à lucidez
que se despenha na tua boca enrolada entre gestos esquivos

e saram os demais sofrimentos que te racham ao meio
porque a onda plana por dentro é polida

e embala tais últimos vestígios 



** 

em todo o andar doido dos pais
escorrega sempre um sorriso leve entre os braços puros
e as cabeças dos filhos deslocam-se
os corações ao alto
como tremem e tremem por dentro
como são tão silenciosos corações e deliciosos sorrisos
e os pais envolvem comovendo-se
os braços apaixonados
os rostos dos pais
inundam-se nos lados das suas bocas
pelas veias e sangue arterial desentupidos
e os filhos rodopiam nos dedos formosos
no chão escorregadio
os filhos abertos ao novo amor sentam-se nos colos calmos
dos pais sentindo todo aquele momento visceral
e eterno
movem-se em silhuetas vivas
atentas a tudo o que se passa e mexe à sua volta
procuram o manso amor a florescer
na cadência absurda das coisas inseparáveis e escorregam
nos pequenos corpos celestes
enquanto a paixão surge numa sombra uma paixão quente fria
os pais têm urgência
nesse amor são do dia para a noite
progressivamente maiores e mais fortes

todos os filhos a certa altura perdem-se
nas brincadeiras para que os pais os encontrem e dancem
a levitar junto ao tecto
junto às janelas que batem noutras janelas
que batem por cima nas cortinas loucas por voarem
com a brisa daquele minúsculo vento levíssimo
a transbordar de imagens suores
e flores deambulantes
mas amplamente perfumadas
e o vento a respirar
dos movimento doidos dos filhos encavalitados nos ombros pérola
dos pais
são vestígios desse doce amor
a erguer-se dentro de todos os órgãos
até chorarem os corações e os sorrisos fora
os seus lábios estão na fímbria do andar pontual dos pais
mas os pais atravessam a morte desértica
pelos seus filhos
os pais são realmente heróis anjos de guarda que mergulham
no magma da terra adentro
e esmagam-se no seu interior por eles
os pais devem ser as coisas mais frágeis e dóceis do mundo
porque os filhos deformam a expressão
do próprio mundo
e alagam os pulmões e cabelos dos pais nos brinquedos de fogo
e nos jogos adúlteros um pouco mais tarde
os filhos sabem aos pais
andam à velocidade das ruas intermináveis
dos becos frios
contudo confidentes

e os pais os mais elevados Deuses
chegam a rachar os seus próprios ossos através da saliva
e lágrimas dos altos filhos
amor mortal
amor a desaparecer no lusco-fusco
todo esse triste amor atira-se precipício abaixo sem pressentir
o desassossego espiritual dos filhos e pais recalcados
pelas submersas infâncias
todas as palavras que os filhos escoam pelo ar negro
arrancam a doçura do mar do sol
mas também das casas
dos quartos intensamente alagados pela força anterior
das belas memórias
como a interromperem-se num vazio corajoso e recente passado
os pais desenterram essas lembranças
como escapam nelas também
filhos e pais a queimarem-se melancólicos
depois certo dia os filhos
numa rara homenagem
escavam de novo o chão da sua casa e penetram solitários
dentro dos quartos
engolem toda aquela água d’alfinetes pretos
para se entrelaçarem nos velhos sorrisos dos pais
vêm à superfície
com os pais às cavalitas
e como brilham o recente caminhar!
sentam-se hoje nas mãos uns dos outros partilhando o choro nu
os pais embrulhados nas roupas dos filhos de alto a baixo
tocam-se em ambas as peles
nos ligeiros poros esvoaçantes beijam-se
nas faces viradas ao avesso com o relevo da luz
a asfixiar os seus reflexos

e as luzes solares inclinam as estrelas cadentes equilibrando
filhos e pais
num sorriso possível sorriso amante
nos pensamentos magnificentes
nada há na morte
pensam filhos e pais pois a vida incha toda a matéria que se mexe
com toda uma violência e alegria certas
germinando por si
o incondicional amor que nas profundezas loucas dos filhos
desentranham o coração manso dos pais
que desliza no sorriso
saboroso dos filhos
que desliza na sua doçura
deslizando na força do amor
que desliza na violência sonâmbula do medo
e crê-se
que o amor entre pais e filhos por fora e por dentro
deve acontecer
e ao acontecer devemos acreditar
que por fora e por dentro está todo o nosso leal amor
e todo o leal amor acontece


Filipe Marinheiro
in, Noutros Rostos 
2014

domingo, 29 de novembro de 2015

JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA


COMOVEM-ME

Comovem-me ainda os dias que se levantam
no deserto das nossas vidas.

Dos belos palácios da saudade
não resta a impressão dos dedos nas colunas
fendidas, e nada cresce nos pátios.

Muito além, depois das casas, o último
marinheiro continua sentado.
Os seus cabelos são brancos, pouco a pouco.

Aqui, tudo se resume a algumas tâmaras que
secaram ao sol,
longe do orvalho,
das fontes que pareciam nascer de um olhar
turvo sobre a sede da terra.

Comovem-me ainda as palavras que dizias
aos meus ouvidos aprisionados pela música.
Comovem-me as cadeiras vazias, no pátio.

Lembro-me sempre de ti.

**

PARTE-SE

Parte-se,
como uma ânfora desmedida,
o meu coração.
É Junho,
começam a abrir-se as flores da melancolia.

Desço os degraus da casa e da terra.
Fecho os olhos.
E por dentro da sua cor,
por dentro da sua luz verde,
esses olhos partem para o mar,
quando o crepúsculo cai do outro lado dos
espelhos.

Parece que os girassóis se erguem na berma
das estradas.
Parece que as cegonhas dormem.

Nem tu,
cujo o rosto vi desenhar-te tantas vezes no
rosto da lua, me poderás salvar.

José Agostinho Baptista
in, ESTA VOZ É QUASE VENTO
Assirio & ALVIM


quinta-feira, 26 de novembro de 2015

JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA

SILÊNCIO

Uma noite,
quando o mundo já era muito triste,
veio um pássaro da chuva e entrou no teu peito,
e aí, como um queixume,
ouviu-se essa voz de dor que já era a tua voz,
como um metal fino,
uma lâmina no coração dos pássaros.

Agora,
nem o vento move as cortinas desta casa.
O silêncio é como uma pedra imensa,
encostada à garganta.

**

BIOGRAFIA

E tudo se resumiu à evidência do pó.
Uma lenda, um ofício, uma teia de
apertadas mágoas que nunca mais
deixará passar a luz.
A tua luz, sol, lua ou juvenil chama dos
campos livres,
apagou-se violentamente.
Nos aquários da noite caiu uma estrela.
O mundo caiu sobre os teus ombros.

**

BONDADE

A bondade mata 
e mata-me a febre que te mata e a tua 
cabeça inclinada
e as tardes da melancolia à volta da
tua cabeça
e a boca sem voz e os gritos que estrangulas
no peito destruído,
elaborando este cenário de torres que se
desmoronam,
perseguindo o invento da terra,
as urnas onde escurece o linho.

José Agostinho Baptista
in, Agora e na hora da nossa morte
Assírio & Alvim




sábado, 14 de novembro de 2015

MARIA GABRIELA LLANSOL

7 de Fevereiro de 1983

Acabou-se o passado; meu companheiro é o dia de hoje; meu amante o tempo que há-de vir.

Maria Gabriela Llansol
in, O AZUL IMPERFEITO
Livro de Horas V
(Pessoa em Llansol)
Assírio & Alvim

MARIA GABRIELA LLANSOL


(...)

    Entre nós forma-se corpo, quilha, penas....
    O falcão intermediário e purificador do céu.
    O livro que, com estes apontamentos, já voo a escrever.
    Quem voa um livro, não trabalha para publicar, nem [para] jornais, trabalha para tornar mais complexa e aberta a natureza. Eu não trabalho, nem para publicar, nem jornais, nem prémios, que são laços inúteis. Textualizando, eu sou um elo que passa até que outro peregrino me recolha.

    Sempre tive a impressão [de] que o pensamento não é, mas se encontra em determinados sítios___ nas relações, e na paisagem.
    Entre nós, neste momento intermediário, está o livro que, com estes apontamentos, já voo a escrever; quem voa, trabalha para tornar mais complexa, e aberta, a natureza. Textualizando, um elo prende-se, até que um outro preegrino o acrescente.
    Sentei-me na cama, com a mão na boca, levantada pela palavra; a primeira fase de articulação é inaudível, depois, a garganta sussurra, estimulada por nada, desce o papel de pensar para a mão direita que guia o sussurro sobre o lápis; enfim, é manhã de sábado e o dia que amanhece _____ vital para mim. Estas emoções, em certos períodos, repetem-se quotidianamente. Ouvindo os pássaros. Para onde o meu sussurro na garganta se transferiu? Estas emoções são um oceano.
    Tenho a certeza de que nós não morreremos, seremos engolidos pelo não-ver. Nosso? Dos outros? Por que é que, de repente, me lembrei tanto de que, quando cheguei a Herbais, sonhava, noites a fio, com a ilha de Robinson Crusoé?
    Eu escrevo duro: quer dizer que eu escrevo em superfícies cujas inscrições são duradouras e rápidas. Faz frio de Inverno e de neve ausente. Estou infinitamente próxima da luz por abrir, e levanto-me com a alegria do que vou escrever.
    Ainda bem que sou protegida por este novoeiro, senão via-se o autor ____ e apagava-se (em mim) a prova e o texto.

(....)


Maria Gabriela Llansol
in,  O AZUL IMPERFEITO
Livro de Horas V
(Pessoa em Llansol)
Assírio & Alvim