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domingo, 13 de maio de 2012

AL BERTO

 
o tempo passa como cinza branda sobre os cabelos, aprisionando-os numa velhice futura - sem fim.
    em meus ossos a terra iniciou o seu trabalho, lento, devorador. o ar corrompe-se na dor dos fogos-fátuos.
    evapora-se o coração do amigo morto.
    o início da vida esteve, talvez, na harmonia de uma gota de água que fecunda um grão de areia.
    jamais saberemos como nasceu o desejo do poema.
    por isso, quando começares a pensar em mim, ou a desejar-me ainda, apenas encontrarás as arestas escuras dos objectos que me pertenceram - enquanto toda a fundura da terra ter-me-á absorvido.
    o meu corpo é agora húmus e ausência. sombra a perturbar-te a vigília do sono - bolor que te cresce, luminescente, entre os dedos. e a minha língua silenciosa, como a serpente, deslizará noite adiante em teu peito, à procura de alimento e de sossego.
    mas não são os mortos que se alimentam com os vivos, são os vivos que escondem na memória o peso dos mortos.
    que nome te resta se eu já aí não estou para te chamar?
    e os meus olhos cegaram com a terra que os bebeu.

*
    vejo-te do meio da longínqua morte, pelo tacto e pelo cheiro, pelo sentir teu corpo contra a minha pele que se dilata e rasga - deixando em redor de tua boca um halo doloroso de zinabre.
    sem mim, a pouco e pouco, transformar-te-ás em corpo mineral. lugar onde se ergue o ouro e a luz, sepultura à medida da tua imagem.
    uma ave descerá com a chuva, e o seu canto diluviano enfeitará o quartzo e o cobre do nosso antigo desejo. uma fera nocturna ensinar-nos-á os caminhos do cio e da paixão.
    em que momento arriscamos a razão por alguém?
    em que momento começámos a falar com alguém que também nos fala e escuta?
    noites hão-de chegar, semeadas de purpúreos astros, de magias - e do fundo da terra onde vivo, onde a minha morte te contempla, erguer-se-á uma neblina perfumada que diluirá o teu corpo sólido no meu etéreo corpo. juntos ascenderão ao estonteante canto da madrugada, até que um carvão se incendeie de novo no olhar - e nos ilumine mais um dia.

*
    quando as mãos encontrarem as mãos, e os olhos de um cegarem no fundo dos olhos do outro - recomeçaremos tudo.
    arrumaremos os objectos e a roupa nas gavetas. limparemos o soalho e o pó, as paredes e toda a casa. e ao abrir as janelas ao riso dos outros, vagarosamente, revelar-se-á uma réstia de alegria. aquela que não é possível partilhar a sós, aquela que necessita doutros corpos para que o mundo se ponha a existir à nossa volta, surpreendente, único, breve.
    depois, havemos de fumar um cigarro e olhar o mar. esqueceremos, nem que seja por um instante, a terra que me foi tragando ao longo dos anos. fingiremos a ordem para podermos refazer o caos.
    no instante em que se torna possível contar todas as histórias do mundo, tu dirás (como se o tempo não fosse agora de cinza, como se o meu corpo ainda cantasse...):
    - vives como se vivesses por trás das palavras de um poema. existes se me amares.
    e eu direi:
    - dantes, eras uma visão. sentia uma luz acender-se na pele e eras tu. hoje, preparo e bebo venenos para que o brilho daquilo que já não és venha ao de cima, se solte do sangue e estremeça, cintile, e não se apague.
    tu:
    - o medo, o grande medo que se confunde com a serenidade, devora-te. e se nos tocarmos perderemos a inocência; ou talvez tu morras e eu ressuscite. mas uma coisa é certa: não nos cruzaremos, mais, estamos definitivamente sós. eu, enterrado. tu, respiras.
    eu:
    - quero morrer perto de ti, de nada me servirá morrer inocente.
    tu:
    - aqui, nesta treva, o que é que parou no tempo? as nossas vidas? a paisagem? o mar? do qual nunca soubemos a idade...
    eu:
    - quando sentia o teu corpo contra o meu ouvia, lá fora, a fúria do mar. era um presságio de felicidade, mesmo sabendo que só o mar das outras terras é que é belo.
    tu: 
    - continuas a escrever demais, matas tudo com as palavras. olha como eu te olho. olha para mim e cala-te. devias encher a caneta com tinta envenenada.
    eu:
    - o último deserto que me resta de ti é a noite da escrita. nela te mantenho vivo, amante morto. já não possuo bens e não prevejo herança nenhuma. vivo para a travessia do corpo que me sepultou na memória... o teu.
   tu:
   - aquele que se prepara para morrer tem que povoar a alma com tudo o que vai abandonar. não chegues aqui de coração vazio. é insuportável estar morto, sem nada que nos habite. a morte não admite distracções; por isso, a maior parte das pessoas não sabe morrer, desfaz-se.
    eu:
    - não há vergonha em dizer ou escrever isto: amo-te ainda.
*
Al Berto
in Canto do amigo morto
Livro de Artistas

   

sábado, 12 de maio de 2012

RUI NUNES


o amor esteve ligado a ofícios, a trabalhos. À memória. Onde se inventa. E reconhece. Nunca a palavras:
:
Um copo de leite frio, tapado com um guardanapo, à noite, na mesa-de-cabeceira.
:
Meu avô a fazer barcos de cortiça, de casquinha de pinheiro, de balsa: caravelas, buques, traineiras, bacalhoeiros: alinhavam-se no alto do guarda-fatos, no mármore do aparador, nas mesas, por todo o lado. Esperavam a minha chegada. E eu ia de sala em sala, a abrir as portas, num rompnate. E contava . Contava-os. Era uma contagem interminável. Havia sempre mais um barco escondido debaixo de uma cama, numa gaveta, no canto escuro da despensa. Meu avô acompanhava-me, silencioso. Silêncio aberto o dele. 
Aberto para a minha alegria.
:


Rui Nunes
in, Barro
Relógio d'Água 

BERNARDO SASSETTI


1970-2012


ANTÓNIO BARAHONA

A TRISTEZA
A tristeza é tremenda: faz tremer
a coluna do nosso aprumo humano:
verga as costas com pêso soberano,
severa até doer.

A tristeza atravessa o corpo com denôdo,
no sangue se mistura que circula
por artérias e veias, na medula
e plo'squeleto todo.

A tristeza apodera-se de nós,
tortura-nos com arte e lentamente,
e com velocidade no requinte
até não termos voz.

António Barahona
in Raspar o fundo da gaveta e enfunar uma gávea
Averno 2011

domingo, 6 de maio de 2012

HERBERTO HELDER

No sorriso louco das mães batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e órgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado,
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens,
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhe nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que ela levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo. São
silenciosas.
E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva,
em volta das candeias. No contínuo
escorrer dos filhos.
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos, porque
os filhos estão como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães.
E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,
e atiram-se, através deles, como jactos
para fora da terra.
E os filhos mergulham em escafandros no interior
de muitas águas,
e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos
e na agudeza de toda a sua vida.
E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,
e através dele a mãe aqui e ali,
nas chávenas e nos garfos.
E através da mãe o filho pensa
que nenhuma morte é possível e as águas
estão ligadas entre si
por meio da mão dele que toca a cara louca
da mãe que toca a mão pressentida do filho.
E por dentro do amor, até somente ser possível
amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.

Herberto Helder,
in, Ou o poema contínuo
súmula
Assírio & Alvim (2001)

sábado, 5 de maio de 2012

MÁRIO CESARINY

autografia I
Sou um homem
um poeta
uma máquina de passar vidro colorido
um copo      uma pedra
uma pedra configurada
um avião que sobe levando-te nos seus braços
que atravessam agora o último glaciar da terra

O meu nome está farto de ser escrito na lista dos tiranos:      
       condenado à morte!
os dias e as noites deste século têm gritado tanto no meu peito que
       existe nele uma árvore miraculada
tenho um  pé que já deu a volta ao mundo
e a família na rua
um é loiro
outro moreno
e nunca se encontrarão
conheço a tua voz como os meus dedos
(antes de conhecer-te já eu ia beijar a ta casa)
tenho um sol sobre a pleura
e toda a água do mar à minha espera
quando amo imito o movimento das marés
e os assassínios mais vulgares do ano
sou, por fora de mim, a minha gabardina
e eu o pico do Everest
posso ser visto à noite na companhia de gente altamente suspeita
e nunca de dia a teus pés florindo a tua boca
porque tu és o dia porque tu és
a terra onde eu há milhares de anos vivo a parábola
do rei morto, do vento e da primavera
Quanto ao de toda a gente - tenho visto qualquer coisa
Viagens a Paris - já se arranjaram algumas.
Enlaces e divórcios de ocasião - não foram poucos.
Conversas com meteoros internacionais - também, já por cá passaram.
Eu sou, no sentido mais energético da palavra
uma carruagem de propulsão por hálito
os amigos que tive as mulheres que assombrei as ruas por onde
          passei uma só vez
tudo isso vive em mim para uma história
de sentido ainda oculto
magnífica     irreal
como uma povoação abandonada aos lobos
lapidar e seca
como uma linha férrea ultrajada pelo tempo
é por isso que eu trago um certo peso extinto
nas costas
a servir de combustível
e é por isso que eu acho que as paisagens ainda hão-de vir a ser
           escrupulosamente electrocutadas vivas
para não termos de atirá-las semi-mortas à linha

E para dizer-te tudo
dir-te-ei que aos meus vinte e cinco anos de existência solar estou
           em franca ascensão para ti O Magnífico
na cama    no espaço duma pedra    em Lisboa-Os-Sustos
e que o homem-expedição de que não há notícias nos jornais nem
     lágrimas à porta das famílias
sou eu meu bem sou eu partido de manhã encontrado perdido entre
     lagos de incêndio e o teu retrato grande!

Mário Cesariny
in Pena Capital
Assírio & Alvim

quinta-feira, 3 de maio de 2012

LUÍS FILIPE PARRADO

POEMA COM DUAS IMAGENS TIRADAS A DYLAN THOMAS


Gosto das noites frias de inverno
quando não estás. Escuto
canções de homens cansados de cantar
e vejo como a solidão
se dispersa no fogo lento da lareira.
Ou releio poemas que me falam das águas
do coração e das suas marés,
amontoo pratos e talheres no lava-loiça,
abro uma última garrafa
de um vinho precioso.


Nas outras noites de inverno,
quando estás, nada de semelhante acontece.
A casa mantém-se sóbria, silenciosa,
perplexa. Por isso, desligo as luzes
e ponho-me a seguir os traços
contínuos do teu rosto no escuro,
depois da morte de deus
parece impossível mas a luz irrompe ainda
onde nenhum sol brilha.

Luís Filipe Parrado
in, ENTRE A CARNE E O OSSO
Língua Morta (nº 24)

terça-feira, 1 de maio de 2012

LUÍS FILIPE PARRADO

O FOTÓGRAFO CEGO

Fosse eu o fotógrafo cego
e guardaria a beleza vacilante das coisas,

a rapariga de blusa desabotoada,
o sol do meio-dia, a chave na porta,
o sopro que se imagina na fonte
do pensamento,
a presença dos ciprestes no mundo,
falhas, o assobio da infância,
espelhos do tempo.

Abraçaria o coração rachado de qualquer muro,
um homem fechado em si
como num caixão.

Quando uma sombra se perde
descobre no ar
o próprio trilho,
eu ficaria só entre os vivos,

escutaria no céu o rasto dos motores,
o fôlego dos vermes,
a lei da queda dos graves,
a nota imperfeita,
a veemência da carne.

Fosse eu e espalharia a luz.

ESCREVER DEPOIS DE UM DIA
DE TRABALHO ÁRDUO

Já não há maçãs
nem laranjas na fruteira

e o cesto do pão
está irremediavelmente vazio.

Ainda assim
escrevo,

ainda assim,
depois de um dia de trabalho árduo.

Depois de um dia de trabalho árduo
os poemas são de pele e osso

e parecem-me estranhamente 
com listas de compras,
pão, laranjas,
maçãs,

coisas escritas à mão,
coisas de que precisamos para viver,

coisas em que pensamos só
quando nos fazem falta.

Luís Filipe Parrado
in ENTRE A CARNE E O OSSO
Língua Morta (nº 24)

MIREL WAGNER

DESPAIR


despair came riding on the crest of a big black wave
knocked me down on the floor
said you’re the one I’ve been looking for
it said dance with me ’till all the stars begin to fall
dance with me till there’s nothing left of you at all

all the stars come down tonight


despair came riding on the crest of a big black wave
thin as a scream and shouting out my name
says no need to beg no need to fight
his voice sends a shiver that brakes my spine


all the stars come down tonight


despair came riding on the crest of a big black wave
and I was like child
looking for a safe place to hide
despair was standing with its jaws open wide
swallowed me whole in to the big black night


all the stars come down tonight



MIREL WAGNER

CÃO CELESTE

ORTOGRAFIA
António Barahona

   A ortografia é o rosto das palavras. Este rosto já sofreu tantas operações plásticas, mal feitas, que, agora, com a última, a pior e a mais estúpida, quase ficou irreconhecível. Chegou a altura de parar e, nalguns casos, de voltar atrás, sob risco de se perder da vista e do coração o pouco que resta da fisionomia das palavras da língua portuguesa.
   Num poema, o aspecto das palavras que o compõem, revela-se tão importante como o seu som. Mesmo quando o poema é escutado e não lido, quem o recita, assinala na dicção, se for bom diseur (dizedor e não declamador), a ortografia e a mancha do seu perfil do lado direito da página. O recitativo torna-se visual, o som torna-se, por assim dizer, visível a duas dimensões, como a pintura do antigo Egipto.
   A última reforma ortográfica destina-se aos carneiros, parasitas e usurários, que necessitam, em simultâneo, nas arengas e transacções, do inglês básico americanizado, factor que acelera ainda mais a degradação da língua nacional, até a reduzir a um dialecto tôsco, que caracteriza, sobretudo, a classe baixa dos políticos e dos magarefes ocidentais sem religião.
   O poeta, neste contexto, é o único que, orientado numa linha de ortografia tradicional, nem sempre etimológica, e sob a esclarecida influência do critério biológico e estético de Teixeira de Pascoaes, o poeta, dizia, é o único homem livre capaz de criar a sua própria ortografia, indissociável da disposição rítmica e gráfica dos seus poemas.

Quem, em edições futuras dos meus livros, se as houver, depois da minha morte, "actualizar" a minha ortografia pessoal, comete um erro de lesa-majestade e uma blasfémia, porque a poesia é da essência monárquica e litúrgica e, como já disse alguém, reina sozinha ou abdica.

(in Raspar, o Fundo da Gaveta e Enfunar uma Gávea, Lisboa, Averno, 2011)


Cão Celeste nº 1
página 6