o tempo passa como cinza branda sobre os cabelos, aprisionando-os numa velhice futura - sem fim.
em meus ossos a terra iniciou o seu trabalho, lento, devorador. o ar corrompe-se na dor dos fogos-fátuos.
evapora-se o coração do amigo morto.
o início da vida esteve, talvez, na harmonia de uma gota de água que fecunda um grão de areia.
jamais saberemos como nasceu o desejo do poema.
por isso, quando começares a pensar em mim, ou a desejar-me ainda, apenas encontrarás as arestas escuras dos objectos que me pertenceram - enquanto toda a fundura da terra ter-me-á absorvido.
o meu corpo é agora húmus e ausência. sombra a perturbar-te a vigília do sono - bolor que te cresce, luminescente, entre os dedos. e a minha língua silenciosa, como a serpente, deslizará noite adiante em teu peito, à procura de alimento e de sossego.
mas não são os mortos que se alimentam com os vivos, são os vivos que escondem na memória o peso dos mortos.
que nome te resta se eu já aí não estou para te chamar?
e os meus olhos cegaram com a terra que os bebeu.
*
vejo-te do meio da longínqua morte, pelo tacto e pelo cheiro, pelo sentir teu corpo contra a minha pele que se dilata e rasga - deixando em redor de tua boca um halo doloroso de zinabre.
sem mim, a pouco e pouco, transformar-te-ás em corpo mineral. lugar onde se ergue o ouro e a luz, sepultura à medida da tua imagem.
uma ave descerá com a chuva, e o seu canto diluviano enfeitará o quartzo e o cobre do nosso antigo desejo. uma fera nocturna ensinar-nos-á os caminhos do cio e da paixão.
em que momento arriscamos a razão por alguém?
em que momento começámos a falar com alguém que também nos fala e escuta?
noites hão-de chegar, semeadas de purpúreos astros, de magias - e do fundo da terra onde vivo, onde a minha morte te contempla, erguer-se-á uma neblina perfumada que diluirá o teu corpo sólido no meu etéreo corpo. juntos ascenderão ao estonteante canto da madrugada, até que um carvão se incendeie de novo no olhar - e nos ilumine mais um dia.
*
quando as mãos encontrarem as mãos, e os olhos de um cegarem no fundo dos olhos do outro - recomeçaremos tudo.
arrumaremos os objectos e a roupa nas gavetas. limparemos o soalho e o pó, as paredes e toda a casa. e ao abrir as janelas ao riso dos outros, vagarosamente, revelar-se-á uma réstia de alegria. aquela que não é possível partilhar a sós, aquela que necessita doutros corpos para que o mundo se ponha a existir à nossa volta, surpreendente, único, breve.
depois, havemos de fumar um cigarro e olhar o mar. esqueceremos, nem que seja por um instante, a terra que me foi tragando ao longo dos anos. fingiremos a ordem para podermos refazer o caos.
no instante em que se torna possível contar todas as histórias do mundo, tu dirás (como se o tempo não fosse agora de cinza, como se o meu corpo ainda cantasse...):
- vives como se vivesses por trás das palavras de um poema. existes se me amares.
e eu direi:
- dantes, eras uma visão. sentia uma luz acender-se na pele e eras tu. hoje, preparo e bebo venenos para que o brilho daquilo que já não és venha ao de cima, se solte do sangue e estremeça, cintile, e não se apague.
tu:
- o medo, o grande medo que se confunde com a serenidade, devora-te. e se nos tocarmos perderemos a inocência; ou talvez tu morras e eu ressuscite. mas uma coisa é certa: não nos cruzaremos, mais, estamos definitivamente sós. eu, enterrado. tu, respiras.
eu:
- quero morrer perto de ti, de nada me servirá morrer inocente.
tu:
- aqui, nesta treva, o que é que parou no tempo? as nossas vidas? a paisagem? o mar? do qual nunca soubemos a idade...
eu:
- quando sentia o teu corpo contra o meu ouvia, lá fora, a fúria do mar. era um presságio de felicidade, mesmo sabendo que só o mar das outras terras é que é belo.
tu:
- continuas a escrever demais, matas tudo com as palavras. olha como eu te olho. olha para mim e cala-te. devias encher a caneta com tinta envenenada.
eu:
- o último deserto que me resta de ti é a noite da escrita. nela te mantenho vivo, amante morto. já não possuo bens e não prevejo herança nenhuma. vivo para a travessia do corpo que me sepultou na memória... o teu.
tu:
- aquele que se prepara para morrer tem que povoar a alma com tudo o que vai abandonar. não chegues aqui de coração vazio. é insuportável estar morto, sem nada que nos habite. a morte não admite distracções; por isso, a maior parte das pessoas não sabe morrer, desfaz-se.
eu:
- não há vergonha em dizer ou escrever isto: amo-te ainda.
*
Al Berto
in Canto do amigo morto
Livro de Artistas







